Split Payment, Cashback & Crédito Tributário

Split Payment: O Que É e Como Funciona o Recolhimento Automático na Reforma

Split Payment: O Que É e Como Funciona o Recolhimento Automático na Reforma

Resumo Executivo

O Split Payment é um dos mecanismos mais inovadores — e mais desafiadores — da reforma tributária brasileira. Basicamente, o tomador de um serviço ou comprador de um bem retém automaticamente a parcela de CBS e IBS devida e a repassa diretamente ao fisco, sem passar pelo caixa do fornecedor. O objetivo é reduzir evasão fiscal e simplificar a administração. Entenda neste guia como funciona na prática, quem é afetado e o que muda para o gestor financeiro.


O Que É Split Payment?

Split Payment (do inglês, “pagamento dividido”) é um mecanismo pelo qual, em uma transação comercial, o tributo devido é automaticamente segregado no momento do pagamento e direcionado diretamente à Receita Federal — sem que o fornecedor precise fazer o recolhimento manualmente.

Na prática:

Transação: Venda de mercadoria por R$ 10.000

Sem Split Payment (modelo atual):
- Fornecedor recebe R$ 10.000
- Fornecedor recolhe ICMS/PIS/COFINS depois (risco de não recolhimento)

Com Split Payment (modelo da reforma):
- Fornecedor recebe R$ 9.200 (valor líquido)
- CBS + IBS (R$ 800) são automaticamente retidos e remitidos ao fisco
- Fornecedor não tem acesso ao dinheiro do tributo

Objetivo: Eliminar o “gap” entre o momento da venda e o momento do recolhimento — o que reduz significativamente a chance de evasão.


Como Funciona no Dia a Dia: B2B vs B2C

B2B (Business to Business) — O Modelo Principal

No B2B, o Split Payment opera de forma integral:

  1. Empresa A vende para Empresa B por R$ 50.000
  2. No momento do pagamento, o banco ou sistema financeiro retém R$ 5.000 (CBS + IBS)
  3. Empresa A recebe R$ 45.000 em sua conta
  4. O banco remete os R$ 5.000 diretamente à Receita Federal

Papéis na operação:

  • Fornecedor (vendedor): emite a nota fiscal, recebe apenas o valor líquido, não precisa calcular nem recolher CBS+IBS
  • Tomador (comprador): efetua o pagamento integral, mas o banco retém a parcela tributária
  • Banco/intermediador: é o agente que faz a retenção e remessa — responsável pela segregação correta dos valores

B2C (Business to Consumer) — Modelo Misto

No B2C, o Split Payment funciona de forma diferente porque o consumidor pessoa física não tem estrutura para reter:

  1. Empresa vende para Consumidor Final por R$ 1.000
  2. A empresa recolhe o CBS + IBS (com destaque na nota)
  3. A empresa recolhe o CBS + IBS conforme regime (normalmente mensal)
  4. Não há retenção automática — o consumidor não faz retenção

Alternativa em discussão: Para varejistas de grande porte, pode haver antecipação de recolhimento via sistema de controle fiscal — mas isso ainda está em regulamentação.


Quem É Responsável por Coletar e Remeter?

CadeiaResponsável pela Retenção
B2B (venda de bens)Comprador (tomador) — através do sistema bancário
B2B (prestação de serviços)Comprador (tomador) — através do sistema bancário
B2C (varejo)Vendedor (o varejista recolhe)
B2C (e-commerce)Plataforma ou marketplace pode ser responsável

Exemplo Prático: Varejista Comprando de Atacadista

Cenário: Rede de supermercados (Varejo Exemplo Ltda) compra de atacadista (Dist. Comercial ABC):

Produto: 1.000 caixas de arroz
Valor unitário: R$ 25,00
Valor total: R$ 25.000,00

Sem Split Payment:
- Atacadista emite NF e depois calcula e recolhe ICMS, PIS, COFINS
- Se atacadista tiver problema financeiro, pode não recolher

Com Split Payment:
- NF-e emitida com valor de R$ 25.000,00
- CBS (ex.: 0,5% em 2027) = R$ 125,00
- IBS (ex.: 1,0% em 2027) = R$ 250,00
- Valor total com tributos: R$ 25.375,00

No pagamento:
- Banco retém R$ 375,00 de CBS+IBS
- Atacadista recebe R$ 25.000,00
- Banco remete R$ 375,00 à Receita Federal

Benefício: O tributo não fica no caixa do atacadista

Questões Técnicas: Como o Banco Sabe Quanto Reter?

Essa é uma das perguntas mais frequentes e a resposta está nos sistemas de NF-e e na integração bancária:

  1. NF-e com campos de CBS/IBS: A nota fiscal eletrônica terá campos específicos indicando o valor de CBS e IBS separadamente
  2. Integração com SPED: O sistema de escrituração digital envia informações ao fisco sobre as operações
  3. Comunicação com o banco: No momento do pagamento via PIX, TED ou boleto, o sistema bancário lê os campos da NF-e e aplica a retenção automática
  4. Validação: Se o valor pago pelo tomador for menor que o valor da NF + CBS + IBS, o banco não faz a retenção completa — gerando alerta no fisco

Desafio: A infraestrutura tecnológica para essa integração ainda está em desenvolvimento. Bancos e processadores de pagamento terão que adaptar seus sistemas para reconhecer e reter automaticamente os valores de CBS/IBS.


Implicações para o Fluxo de Caixa

Para o Fornecedor (quem vende)

Vantagem:

  • Não precisa mais de “reserva de caixa” para pagar CBS/IBS no vencimento
  • Dinheiro do tributo nunca entra no caixa — evitando uso indevido

Desvantagem:

  • Recebe menos dinheiro por venda (valor líquido menor)
  • Se a empresa depende desse dinheiro para capital de giro, pode ter problema de fluxo

Para o Comprador (quem paga)

Vantagem:

  • Pode utilizar o crédito de CBS/IBS na proporção correta
  • Não precisa fazer o recolhimento manual — o banco faz

Desvantagem:

  • Tem trabalho de configurar sistemas para reconhecer a retenção
  • Precisa garantir que o banco está fazendo a retenção correta

Split Payment e Substituição Tributária

Um ponto de atenção: quando há Substituição Tributária (ST), o recolhimento já é feito antecipadamente pelo substituto tributário. Como o Split Payment interage com isso?

Possível conflito:

  • A ST já antecipa o tributo — o substituto paga antes da operação ao consumidor
  • O Split Payment no momento da operação B2B pode gerar “dupla tributação” se não houver mecanismo de dedução
  • A legislação complementar deve esclarecer como será o mecanismo de dedução e compensação

Como o Gestor Financeiro Deve se Preparar

  1. Cadastrar-se no novo sistema — empresas precisarão de credenciamento específico para Split Payment
  2. Revisar contratos com bancos — garantir que os bancos parceiros terão capacidade de retenção
  3. Ajustar fluxos de caixa — o valor recebido por venda será menor (já sem CBS/IBS)
  4. Treinar equipes de contas a pagar — quem paga as contas precisa entender o mecanismo
  5. Atualizar ERP — configurar campos de Split Payment nos módulos financeiro e fiscal

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